Causos da Curva: A águia, a aranha e o erro de cálculo (texto + fotos)


Em uma das viagens ao Parque Estadual do Ibitipoca, após conseguir a devida autorização, subi no Pico do Cruzeiro para passar a noite.


A idéia era trabalhar fotografias noturnas e experienciar, uma vez mais, o contato direto e solitário com a natureza. Foi com este belo por do sol que iniciei os trabalhos.



Horas mais tarde, já tendo produzido bastante, estava contemplando o cenário, observando a movimentação das nuvens. Da última vez que passei a noite ali, o local foi atingido por uma forte tempestade e fui obrigado a me proteger na gruta que há lá em cima. Porém, apesar do clima estar mais suave desta vez, nesses ambientes nunca se deve deixar de observar a movimentação dos elementos. Nesse contexto, tarde da noite, uma formação que vinha por trás do Pico da Lombada, mais acima, começou a me preocupar.


A foto abaixo é parte de uma série feita para monitorar tal formação, pois, a olho nu, mal se conseguia distinguir suas formas. Esta foto deixou claro que a noite seria intensa, pois nela o pico da Lombada já está todo encoberto e, portanto, só haveria alguns minutos para sair dali se eu quisesse preservar o equipamento da umidade.



Com a aproximação da nuvem, percebi que não havia muita água dentro daquela massa e resolvi ficar ali mais um pouco. Valeu a pena! Minutos depois, o cenário era totalmente diverso. Foi impressionante o silêncio que se seguiu e por um longo tempo nem o ar, nem as folhas, nenhum animal fazia qualquer ruído. Parecia realmente que eu estava sozinho, em um outro planeta... Contemplei o meu entorno, fiz algumas fotos como a esta abaixo, refletindo a transformação dos elementos a minha volta.


Essas situações costumam provocar em mim estados mentais bastante curiosos. Então, apesar de estar em profunda contemplação, paradoxalmente também estava em alerta extremo. Subitamente, um vulto surge a uns quatro metros acima de mim me impulsionando a olhar em sua direção, revelando um nível de alerta que a contemplação parecia suprimir.


Era uma águia! Batendo fortemente as grandes asas, pairou por alguns instantes sobre minha cabeça, afastando-se logo a seguir, desaparecendo na nevoa. Paralizado com a riqueza daquele momento, mal pude acreditar quando, após alguns segundos, ela retorna, agora, pairando mais distânte e sumindo logo a seguir, desta vez em definitivo.


Acho que no meio daquele silêncio, devo ter chamado sua atencão e ela veio verificar "o que" eu era. Objetivamente, teria sido apenas isso mas, internamente, são esses momentos absolutamente únicos que me movem. Não cabe mais nenhuma palavra sobre isto...


Cerca de uma hora mais tarde, o equipamento já está muito molhado e a temperatura cai consideravelmente. Tendo já aproveitado aquele cenário, resolvo ir até a gruta do Cruzeiro para esperar o clima melhorar.

Uma vez lá dentro, essa seria minha visão se a luminosidade fosse suficiente para se enxergar algo.

Diferentemente de outras ocasiões em que passara a noite no Pico do Cruzeiro, havia resolvido tudo um pouco de última hora e acabei calculando mal as possíveis alterações climáticas. Assim, a forte queda da temperatura me obrigou a improvisar um minúsculo abrigo com o tripé da câmera e um cobertor emergencial.


A solução foi suficiente, mas essa situação me fez refletir e aprender um pouco mais sobre esses mergulhos. Poderia ter tido um problema mais grave por puro erro de cálculo.



Depois de resolver a questão do abrigo, fui surpreendido por mais um fator que o meio natural inseriu no jogo. Esta aranha solitária vasculhava o chão da gruta sistemáticamente, como deve fazer todas as noites em busca de alimento. Sendo grande e aparentemente agressiva, me tirou totalmente a possibilidade de sequer cochilar pois poderia acontecer algum incidente.


A foto da esquerda mostra minha visão de dentro do pequeno abrigo, com minha companheira bem próxima. Nem por um segundo considerei a hipótese de matá-la porque o invasor era eu, além do mais, ela parecia tão única e senhora naquele ambiente. Passei umas duas horas em silêncio, seguindo-a de perto, observando tudo que fazia. As vezes, quando na fila do Banco, me lembro dela e sempre acabo sorrindo, ao imaginar que ela ainda está lá e como exigiu de mim, tendo assim, me ensinado...


Naquela noite, eu ainda repetiria esse ciclo de me abrigar na Gruta mais duas vezes. Finalmente, as 4:15 da manhã, como o tempo abriu, a umidade foi pressionada bem mais pra baixo da montanha e pude fazer várias fotografias como esta abaixo. Surreal!


A noite difícil e cansativa, exigiu bastante cuidado e muito esforço.


Tudo valeu a pena, ficaram lembranças muito especiais de lições e estranhas amizades.




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